Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

 

Apresentação livro FOGO DE ARDER de António Gil

Sábado, 9 de Abril de 2011, 17 horas, Pavilhão do Mar

 


  

  

Caros membros da Mesa,

 

Caras amigas, caros amigos,

 

Esta comunicação terá a duração aproximada de 12 minutos. Ao longo da mesma tomarei a liberdade de ler passagens dos textos do António Gil, sem preocupações de identificar o poema A ou B. Refiro que esta é uma apresentação pessoal, por isso subjectiva, que não pretende desvirtuar a fruição das palavras, nem reduzi-las a uma análise técnico-literária, pois para tal existem outras entidades mais credenciadas para o fazer.

 

Começo por pedir as minhas sinceras desculpas porque não pretendo que a apresentação deste livro se transforme numa leitura fechada e absoluta. A leitura que fiz destes poemas, ou as várias leituras que fiz ao longo dos dias, deixa antever desde já a utilização das regras universais e intemporais que regem a estética poética ao longo dos séculos.

 

A poesia tem o poder de nos fazer desviar da normalidade do mundo material, transgredindo-o, desordenando-o, confundindo-o, para depois novamente reconstituí-lo sobre o nada. Num certo sentido, este Nada é a matéria-prima de todo e qualquer poema. Ora, esta descoordenação voluntária e imprevisível das palavras, faz-se ao nível das próprias regras da sintaxe, como também sobre os conceitos de tempo e de espaço que são continuamente ilógicos, fazendo de nós, leitores, seres espaciais derivando por atmosferas conceptuais longínquas, desconhecidas e por descobrir.

 

A poesia existe desde que o Homem é homem e serve para ser declamada. Qualquer leitura de um poema, ou de um livro de poemas é, por definição, algo insondável, para não dizer mesmo intangível. Através dos séculos, a poesia procurou consumir o infinito e a eternidade dos povos através da palavra mágica, palavra que pedia para ser lida em voz alta. Dos poetas gregos aos latinos, do barroco ao romantismo, de todas as vanguardas finisseculares do século XIX, à catadupa de correntes estéticas e escolas do século XX. E eis que em pleno século XXI, em Ponta Delgada Açores, António Gil lança um livro de poemas, Fogo de Arder, que, permitam-me dizê-lo, pode ser lido como um único poema. E tal como outros poetas, o autor refere-se à questão do infinito e da eternidade nas suas páginas.

 

Como podem constatar, há no título deste livro duas coincidências felizes que amplificam os seus contornos poéticos. Por um lado, a aproximação à linguagem popular micaelense, implícita na conhecida expressão está de arder, muito usual entre nós, o que revela a preocupação do António, português nascido no continente, em aproximar a linguagem poética ao nosso falar colectivo e histórico. Por outro lado, a aproximação da expressão fogo de arder à célebre imagem camoniana fogo que arde sem se ver, ou seja, o amor, fogo de arder, no concreto o amor imaculado que António Gil confessa pela sua terra adoptiva, os Açores, e particularmente Ponta Delgada, sabiamente retratada em poema a cidade dos anjos.

 

Fogo de Arder tem 26 poemas. Mas, permitam-me repeti-lo, lê-se como se fosse um só, em que a inquietação vibrante e o desassossego constante do autor procuram desesperadamente uma evasão do mundo material para mundo um eterno. Uma passagem difícil, digamos, não permitida a qualquer um.

 

Parece-nos um desígnio elevado o encontro da pureza das palavras com um mundo confuso, ora efémero, concreto e cinzento, ora eterno, abstracto e divertido. Não é ingénua a definição de estrelas do António. Ora, para ele, as estrelas

são coisas que inventamos para desenhar distâncias.   

 

A poesia é, por definição, a ausência de tempo e de espaço coerente. No conjunto dos géneros literários, a poesia, sobretudo a poesia contemporânea, ocupa o destaque dos textos mais difíceis e insondáveis. Ao contrário da narrativa, que recria, dentro do possível, um mundo lógico e de elevado rigor material, a poesia desmancha de propósito esse mundo disciplinado em que nos movemos quotidianamente. Reveja-se, por exemplo, que as estrelas, já de si elementos quiméricos, não são apenas astros que brilham no céu. Como diz o António, elas são invenções nossas que desenham distâncias. A distância aqui poderia ser aquela que vai entre o poeta e o infinito.

 

Em suma, o poema, de um modo geral, é um texto que não conhece preconceitos de espécie alguma, onde todas as metáforas, todos os exageros, todas as tendências, todas as vibrações, todas as emoções, combinadas nas suas múltiplas vertentes, podem ser baralhadas voluntariamente para não ter sentido nenhum, ou também para exigir que o leitor lhe dê um sentido próprio e único, confinados a um tempo e a um espaço determinados.

 

Mas Fogo de Arder também é a imagem, algo naif, da alma do poeta. Alma que é emoção. Emoção que é palavra. E se no princípio era o verbo, quando o mundo era tão antigo e o tempo tão quieto, então no princípio há uma cidade dos anjos que nasce no mar e que é feita de pedras negras e quentes, que amanhece enevoada, que é verde, que tem janelas suspensas enfeitadas de esperanças, e a cidade dos anjos também é azul, uma cidade de destinos resguardados, e que todas as cidades dos anjos do mundo vestem-se igualmente de eternidade. Os dias da cidade dos anjos de todo o mundo são erguidos sob as palavra que descem do alto inquietas, as palavras do autor, doces, amargas e são palavras de aqui. Estranho e interessante a utilização do advérbio de lugar aqui, para fixar o ponto onde o poema é escrito. A cidade dos anjos, como já o disse, nasceu no mar, e a eternidade dá à costa todos os dias.

 

Neste livro arde um silêncio eterno maior do que o mundo, arde uma eternidade que não é nem líquida, nem sólida. Esta eternidade até poderia ser qualquer coisa, um som ou um acorde, e ela chega claramente de um outro poema, de um outro sonho, pois os sonhos são todos eternos.

 

A certo momento, António Gil desafia-nos com três perguntas indecifráveis. Três frases interrogativas, de palavras suaves, mas intensificadas por emoções fecundas:

 

Pergunta 1: Pode um olhar atravessar o mundo?

 

Pergunta 2: Pode uma alma trespassar o silêncio?

 

Pergunta 3: Pode a saudade vestir a madrugada?

 

O autor desfralda então a sua alma de vibrar o mundo, mas também o mundo vibra na alma. Desfralda a sua alma, desnudando-a, para que, na eternidade suspensa das janelas, arda todo o silêncio, todo o infinito, todo o fogo, todo o amor.

 

Sucessivos são os cenários e as paisagens oníricas em que o autor se abandona a si mesmo e se deixa existir numa vida a que podemos chamar paralela. Aliás, arrisco mesmo dizer que o livro está estruturado nessas múltiplas paisagens, nesses múltiplos cenários, que ora surgem, ora desaparecem, à velocidade com que os dias das nossas vidas vão passando.

 

Mais à frente, depois da sua montanha de subir, em que o autor vê uma criança descer, num local chamado à beira do horizonte, depois da madrugada que viu nascer a cidade dos anjos, depois do alvoroço do luar, o autor enfim acorda, com o sol a tocá-lo na ponta dos dedos da mão esquerda, pois a mão direita estava fechada. E o autor acorda cego, e constata que o mundo já tinha acabado, e o autor não consegue morrer, porque só os puros morrem depressa. E nesta dinâmica de vive-dorme-acorda-não morre, terá o autor ganho a imortalidade.

 

E o autor viaja pelas imagens da cidade, qual lembrança nos faz de Cesário Verde. O autor está à mesa do café, num sábado, numa cidade imaginária, ou está alcandorado no infinito a perguntar quem compreende? Ou debruça-se sobre o mesmo infinito, ou navega em sonhos eternos, e novamente a vaga da cidade, a cidade de silêncios despidos, de bonitas mulheres, de pacatos homens, ao meio dia, todos aguardando, entre sereias e segredos, os solenes destinos. E termina brilhantemente um dos poemas com as palavras estas ilhas estão de arder.

 

Confesso o meu gosto pessoal pelo jogo de sonoridades que António Gil utiliza em muitos dos poemas. Não é tanto uma escrita espontânea e inspirada numa dor intangível, é antes um agrupar de palavras musicadas e trabalhadas na zona do pensamento onde desabrocham as emoções. Emoções essas, contidas e maduras. Não constato nestes 26 poemas que houvesse aquela sensibilidade gratuita e desinteressante como vemos muitas vezes numa certa poesia de menor qualidade. Estamos, pelo contrário, ante uma poesia marcadamente urbana e intelectual, em certo momento apaixonada pela vida, noutro tempo potenciada pela euforia da cultura moderna.

 

Constate-se que não estamos perante um hábil manipulador de palavras bonitas e esbeltas, mas antes de um artífice de conceitos bem enredados, cujo resultado nos transmitem uma musicalidade, digo eu, quase imaculada.

 

Relembro brevemente que desde sempre isolados pelo mar e pela distância, a poesia produzida nestas ilhas não poderia ser senão uma poesia resgatada na saudade. Felizmente a nossa história colectiva recente, conjuntamente com uma proximidade cada vez maior com o Mundo, o passado próximo e o presente reserva-nos a oportunidade única de termos de construir mensagens mais criativas e mais próximas das expectativas de milhões de leitores em todo o mundo. O nosso objectivo comum, de levarmos estas mensagens ao Mundo, começa com a forma como o interiorizamos, como o interseccionamos com o nosso microcosmo, gerando uma linguagem nova e moderna que encontrará no Outro, lá fora, eco da nossa qualidade e relevância literária. Isto para dizer com grande simplicidade que estes 26 poemas têm todos os atributos necessários para trespassar fronteiras e ser lido em outros destinos literários espalhados pelo Mundo.

 

Portanto, Fogo de Arder ambiciona recuperar os cânones da dita literatura açoriana do mar, da névoa, do basalto, do isolamento, da saudade, etc, que, segundo alguns observadores mais habilitados do que eu, marcou uma época dourada das nossas letras. Espero e acredito que este Fogo de Arder marque uma fase nova, rica em produção de textos publicáveis e próspera em nomes emergentes.

 

Estes textos de António Gil marcam dois aspectos cruciais da nossa existência actual: por um lado, é o instrumento para romper com a tradição cultural e literária dos Açores, feito que aconteceu já com outras artes, nomeadamente as artes plásticas há alguns anos a esta parte; por outro lado, a necessidade de irromper com fórmulas novas no contexto actual em que nos encontramos, ou seja, a necessidade de mudança no nosso horizonte cultural. Este livro pode e deve ser lido muito para além de um livro de poemas. Até porque a poesia serve outros desígnios que não apenas os estético-literários. A poesia é revolucionária no sentido que nos aponta novos sentidos da realidade. Aceito que estas palavras extrapolem a missão que me incumbe hoje aqui, mas não podemos deixar de referir que um bom livro de poesia, como estou convencido que este o é, é como um vinho de uma boa reserva. Não basta abri-lo e tragá-lo em busca das suas propriedades inebriantes, mas antes devemos deixá-lo respirar em toda a sua amplitude e degustando-o, enriquecemos o nosso quotidiano. 

 

E, para terminar, um livro que tanto reclama o infinito e a eternidade, termina com um poema chamado Finito? E eis que chega então o poeta ao seu destino, à sua razão de escrever palavras incompreensíveis, imprevisíveis, insondáveis, intangíveis, chega o poeta ao porto final que nunca conheceu a partida. Finito? Não, ainda a manhã, a preguiça, o sol, entrecruzam-se pachorrentamente, um café com preguiça, numa manhã espraiada ao sol e ao oceano. Finito? Sim, finito.

 

Luís Almeida

Ponta Delgada

9 de abril de 2011

 


Luís Almeida

 



publicado por A Gil Açores às 17:34 | link do post | comentar

4 comentários:
De João Figueiredo a 12 de Abril de 2011 às 13:08
Plim... foi uma grande e inspiradora apresentação... muito boa. Parabéns a todos... João F.


De A Gil Açores a 13 de Abril de 2011 às 03:04
Luís Almeida, estiveste demais nesta apresentação. Sou-te grato. Quanto à tua leitura Luis, deixa-me dizer-te que a tua sensibilidade honra a poesia em geral, e a mim em particular. Obrigado


De João Figueiredo a 15 de Abril de 2011 às 12:34
Muito obrigado, mas o mérito está nas tão grandes palavras poéticas espelhadas nesta obra...


De Luís Almeida a 19 de Abril de 2011 às 10:04
Caros:
Ainda não tiha tido a oportunidade de comentar o blogue. Está muito bom, acho muito importante para continuar a falar do texto do AG. Reitero as palavras que escrevi: estamos perante uma linguagem diferente, que merece ser divulgada. Ao texto Fogo de Arder, às suas plavras, continuarei a divulgá-las como puder. Felicidades! 


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